Paulo Hartung (PMDB) não é mais unanimidade no Espírito Santo. Em 2014 perdeu no voto para o ex-governador Renato Casagrande (PSB) na Grande Vitória e teve que virar o jogo nos grotões, como fazia a Arena, sustentáculo do regime militar, e os partidos que a sucederam e contra os quais o líder estudantil Paulo César Hartung Gomes combatia, a partir da presidência do Diretório Central dos Estudantes (DCE), da Ufes.

Foi, justamente, na sua militância de líder estudantil, no curso de Economia e sustentado pelo pai empresário, que Paulo amealhou o grupo que ainda o acompanha até os dias atuais – Neivaldo Bragatto (economista), César Colnago (médico), Anselmo Tozzi (médico) – e cooptou outros auxiliares de segunda hora.

Nos bancos da universidade, sob inspiração da estratégia política do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o velho Partidão, ao qual pertencia (clandestino, o partido jogava seus militantes debaixo do guarda-chuvas do MDB até o pluripartidarismo pós-anistia de 1979), Paulo Hartung traçou o plano de tomada de poder, que começou quando ele se elegeu deputado estadual em 1982.

O discurso do combativo deputado estadual da volta da democracia está longe da prática do caudilho dos tempos modernos, articulado com o grande capital sob o manto de uma organização chamada “Espírito Santo em Ação”, que talvez possa fazer analogia à “Operação Bandeirante” (Oban), que reunia grupos empresariais de apoio à ditadura militar nos anos de chumbo. Não sem motivos Paulo Hartung foi chamado, metaforicamente, de imperador por seu antigo aliado Luiz Paulo Vellozo Lucas, que falou de seu “espírito napoleônico”, e a pecha pegou.

Paulo Hartung é mais temido do que amado. Seu antigo inimigo político José Ignácio Ferreira, governador eleito pelo PSDB, que caiu em desgraça por armadilhas montadas dentro de sua própria casa, queixava-se de que, enquanto ele tinha que pensar no governo, o então senador Paulo Hartung, a quem deu a vaga após derrota na convenção tucana de 1998, “pensa política o tempo inteiro”. Depois de dois anos quando se projetava imbatível, o governo de Ignácio derreteu como picolé ao sol, em meio a denúncias de corrupção articuladas, na época, por Hartung e Theodorico Ferraço, então, aliados.

A partir de 2003, Paulo Hartung, escolhendo o “crime organizado” como seu inimigo em comum “com a sociedade capixaba”, projetou-se como um foguete – não sem a ajuda providencial do Presidente Lula, em seu primeiro mandato, antecipando mais de 400 milhões de reais de royalties do petróleo para equilibrar as finanças estaduais e permitir manter em dia os salários dos servidores, que tinham problemas desde o final do governo de Albuíno Azeredo em 1994, o que piorou no Governo do PT de 1995 a 1998, e se prolongou pelo de José Ignácio (1999-2002), que somente conseguiu pagar porque “contingenciou” parte dos salários de todo mundo.

Cobrado pelo Planalto, que tinha um acordo nacional com o PSB nas eleições de 2010, Paulo Hartung causou à família Ferraço o maior constrangimento de sua história, “rifando” a candidatura natural de Ricardo Ferraço, então vice-governador, indicando à sua sucessão o nome do então senador Renato Casagrande (PSB). Ricardo só soube disso na entrevista convocada por Hartung para anunciar Casagrande como seu candidato.

Hartung cobrou caro pelo apoio: ocupou a metade do governo, os postos mais importantes, com seus homens de confiança, que ficaram até seis meses antes do pleito de 2014, saindo para trabalharem pela eleição de seu patrão. Mesmo assim não foi tão fácil. Asfixiado, Renato Casagrande, que fez uma administração responsável, com muitas obras estruturantes, foi compreendido pelo eleitor mais esclarecido e independente da Região Metropolitana, mas atropelado no interior – justamente, por quem tanto fez.
Graças a alianças suspeitas com o PT, e o apoio de Ferraço, fundamental na região Sul,

Paulo Hartung ganhou no primeiro turno com 53,44% dos votos, enquanto Casagrande, política e eleitoralmente asfixiado, ainda assim fez 39,34% dos votos. O PT manteve a inviável candidatura do deputado Roberto Carlos, para dividir o processo, e ele teve 6,01% dos votos.

Em números absolutos, PH teve 1.020.440 votos, Casagrande teve 751.293 e Roberto Carlos 114.691. Foram 257 mil votos brancos e nulos, praticamente a diferença que separou Renato de Hartung.

Se dependesse dos cinco municípios da Grande Vitória, Paulo Hartung teria perdido a eleição para Renato Casagrande. Ele ganhou em Vitória por 1.000 votos e em Cariacica, mas perdeu em Serra, Vila Velha e Viana. Somando os votos de cada um nos cinco municípios, Renato Casagrande teve 379.808 votos e Paulo Hartung somou 369.494 votos. Uma diferença de 10.314 votos em favor de Renato Casagrande.

Quem desequilibrou a eleição em favor de Paulo Hartung foi, principalmente, Cachoeiro de Itapemirim, onde ele teve 63.037 votos contra 29.733 dados a Renato Casagrande; Linhares com 49.973 para Paulo e 20.273 para Renato e Colatina com 32.785 votos dados a Paulo Hartung e 24.129 para Renato.

Paulo Hartung saiu arrastando nos pequenos municípios: ganhou em 64 deles, numa média, um pelo outro de cerca de 2.500 votos em seu favor. Houve casos onde a vitória foi quase unânime, como Divino de São Lourenço, menor colégio eleitoral do Estado, onde ele teve 75% dos votos, contra 11% dados a Renato. A rigor, os municípios do Caparaó, onde Paulo Hartung nasceu e foi criado (entre Guaçuí e Iúna), deram ao atual governador as maiores margens percentuais de votos.

Há casos emblemáticos. Na região Noroeste, onde o então ex-deputado e ex-prefeito de Barra de São Francisco Enivaldo dos Anjos, que concorria à Assembleia pela PSD, apoiava a candidatura de Renato Casagrande, houve duas derrotas simbólicas de Paulo Hartung: em Barra de São Francisco, Renato teve 11.012 votos e Paulo 10.904, mas em Ecoporanga, onde Enivaldo também é forte, Renato mais que dobrou a fatura: 8.310 x 4.115. Outros dois municípios onde Renato Casagrande ganhou foram Alto Rio Novo, também no Noroeste, e Castelo, onde ele nasceu.

Hoje, Paulo Hartung sabe que não poderá contar tanto assim com o maior colégio eleitoral do interior do Estado, Cachoeiro de Itapemirim, governado por um aliado de Renato Casagrande, e tendo ainda contra si a declarada ira do cacique Theodorico Ferraço (DEM), que o apoiou em 2014. Linhares está dominado, pelas mãos do prefeito Guerino Zanon (PMDB), a quem Hartung protegeu quando houve o risco de ser cassado em outra época.

Colatina, apesar de governada por um prefeito peemedebista, Paulo Hartung não pode ter tanta segurança. Já não ganhou com tanta frente em 2014, quando tinha o prefeito a seu favor, e agora Sérgio Meneghelli, que ganhou a eleição sem qualquer interferência de grandes líderes e tornou-se, talvez, o maior fenômeno das redes sociais no Brasil (um vídeo recente, com sua atuação trabalhando em obras e jardins junto com a população e operários, passa de 5 milhões de visualizações), ninguém sabe se vai sair pedindo voto para alguém, mas talvez se abrir a boca pode desequilibrar o jogo, tamanha sua popularidade. É uma joia cobiçada nas eleições de 2018.

O que faz, então, Hartung, ao saber que corre risco? Finge de morto, cria fatos ligados à política nacional, ao mesmo tempo em que dá sinais, em reuniões com sua base política, de que será candidato à reeleição. Está inaugurando até poste no interior, acompanhado de deputados de sua base, e faz investimento pessoal numa figura polêmica, o prefeito Daniel do Açaí (PSDB), de São Mateus, já com cassação decidida em primeira e segunda instância pela Justiça Eleitoral, mas mantido no cargo por uma liminar do próprio presidente do Tribunal Regional Eleitoral.

Em São Mateus, em 2014, um colégio eleitoral crescente, já o sétimo maior do Estado, Paulo Hartung não foi tão bem: teve pouco mais de 4 mil votos de frente para Renato Casagrande. Ao mesmo tempo, o governador faz o jogo da cooptação em Viana e em Nova Venécia, onde os prefeito são aliados de Renato Casagrande, que se mantém ativo nas redes sociais.

Onde está o perigo maior de Paulo Hartung? Na Grande Vitória, a região mais afetada pela greve histórica da Polícia Militar em fevereiro de 2017. Foi uma tragédia social, com mais de 200 mortes, incêndios de ônibus e a população presa dentro de casa.
A eleição na capital, que reconduziu seu adversário Luciano Rezende (PPS), aliado de Renato, para mais quatro anos à frente da Prefeitura, já foi um indicativo de que as coisas não andam bem para o governador onde o eleitorado é mais independente.

Parece haver uma percepção clara, porém, silenciosa, de que Paulo Hartung deixou a bomba estourar nas mãos de seu vice, César Colnago, que ficou perdido em meio à crise. Na época, Paulo Hartung licenciou-se e foi se internar em São Paulo para tratar o câncer na bexiga. Voltou fazendo discurso de vítima, quase chorando na frente das câmaras. Uma imagem patética, quando quem chorava era a população capixaba.

Enfim, a eleição de 2018 para governador do Espírito Santo ainda está indefinida, mas Renato Casagrande vira-se nas redes sociais, onde vai alcançando um tipo de eleitorado diferente e tem três vezes mais seguidores do que Paulo Hartung. Se isso vai se expressar em voto, sabe-se lá. Até porque nos grotões, grandes e pequenos, quem manda são os coronéis do Século XXI, com o dinheiro do “Espírito Santo em Ação”.

WhatsApp Image 2017-12-29 at 17.43.15

Anúncios