Rodiney recebeu a fita e apelo do Ferraço sobre proteção. Eu não recebi nenhuma. Tudo ficou nos bastidores
Rodiney , então secretário de Segurança, recebeu a fita e apelo do Ferraço sobre proteção.Fiquei com a proteção de Deus

Houve um tempo  de trevas para mim, como jornalista, mais do que o comumente. No último mandato de Theodorico Ferraço como prefeito, há certa de 16 anos, descobri através de uma das minhas fontes que eu e o mandatário estavam jurados de morte – em curso.

Comuniquei ao prefeito que se assustou – demonstrou grande medo de morrer – . A partir de então Ferraço não me deixou em paz, indo regularmente no meu escritório, na Editora LEIA.  Cercou-se de segurança, carro blindado da PMCI, e pediu que eu fizesse o mesmo – eu não tinha e não tenho dinheiro para este tipo de seguro.

Não gosto de ficar acumulando problema sem solução. Fui atrás do traficante – acusado de várias mortes – para tirar a limpo sobre a história. Ferraço acompanhava tudo. Minhas fontes foram indicando os caminhos. Cheguei até a um documento do MP, de posse do promotor de Justiça SaintClair Nascimento Júnior.

Constava no documento, depoimento da esposa do contratado para nossa morte, que ela teria primeiro procurado a Polícia Federal de Cachoeiro-ES, narrado os fatos, que não oficializaram a oitiva, escoltando-a até ao mencionado promotor.

Com o nome dela, por meio de mais fontes, consegui o telefone para encontro, pois sua fragilidade de contar sobre a encomenda estava no marido que não cumpriu a missão por se tratar de um jornalista e de um político. E o mandante, policial, intermediário de empresário “notável’, disse que colocaria mais mortes nas costas do “jagunço urbano”, com ameaças até à família.

Bem! Informei ao Ferraço que estava perto e o prefeito pediu-me para levá-la e o esposo no sub-solo do edifício aonde ainda mora em Cachoeiro de Itapemirim, sobre o campo do Estrela do Norte, time de futebol tradicional da cidade. Peguei sozinho a esposa do traficante em lugar público de grande fluxo de gente – em frene ao Supermercado Casagrande: O nome dele “Juninho Tatuagem”, na época comparsa de Izilda, do bairro Nova Brasília.

Chegando no local marcado, vi um Ferraço parecendo um muçulmano, todo enrolado em pano ou cobertor até aos olhos, com um boné. Encontro tenso e gravado a pedido do próprio traficante, onde narrou toda a história sobre os interesses, intermediários e mandantes. O prefeito ficou estarrecido. Eu, mais com o espírito jornalístico.

Em síntese, “Juninho Tatuagem” narrou detalhes surpreendentes como eu seria morto, por exemplo. Colocaria uma bomba caseira debaixo de um Pólo Preto que eu já não tinha mais em frente ao jornal, cuja sede era no bairro Recanto. Quanto a Ferraço, seria atear fogo com ele dentro, em situação propícia, considerando o carro blindado.

O mandante estaria no Rio de Janeiro, como álibi. Os traficantes citados tinha a morte recente, na época, de um funcionário da área comercial da Marbrasa, empresa de Mármore e Granito, e ação milionária na Justiça do Trabalho que iria a julgamento dias antes de ser desovado no Município Itapemirim, em que Norma Ayub era prefeita.

Para findar esta crônica, Ferraço entregou a fita gravada por mim ao então Secretário de Segurança do Estado, Rodney Miranda, hoje prefeito de Vila Velha. E eu segui em minha vida em frente com outros embates até este dia, sem nenhuma surpresa sobre as aberrações deste mundo.

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