Minha carta “pré” póstuma

Posted on 27/02/2015

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Por Jackson Rangel Vieira

O derradeiro dia vem para todos debaixo do sol e da lua. O desejo sobre como será meu velório deixo escrito sem receio de arrependimento. Vou logo ao ponto: Deixarei orientado a alguém de minha confiança que se cumpra a risca o formato do enterro.

 A exceção de menos de cinco pessoas, os demais estarão proibidos de velar o meu corpo. O ataúde em cortejo será levado por quatro desconhecidos até aos sete palmos. Nada de cruz e lápide!

Deixarei uma carta explicativa sobre todas as pessoas que conviveram comigo a respeito dos motivos pelos quais não poderão chorar sobre o caixão; e aos que poderão, sem difamar, caluniar e injuriar. cada um entenderá nas palavras chaves do porquê não desejo suas lágrimas.

 A esta altura da minha vida, quem tinha de demonstrar amor ao meu ser, já teria expressado de modo que eu percebesse. Mesmo morto, impedirei lágrimas de conveniência. Farisaica. Sou um amado de Deus, disso bem sei.

Para garantir a vontade deste “falecido”, vou registrar em cartório  sob custódia em petição judicial para o seu cumprimento na íntegra . Autorizarei – e deixarei recurso para tanto – a contratação de seguranças para impedimento da entrada aos céticos e desavisados ou falsos inconformados.

Não quero ser promovido a “um homem bom” como todo falecido. Quando vim ao mundo não cultivei nas pessoas amor com mentiras para ser unanimidade. Só quem me amou e cuidou de mim terá o direito da saudade.

Quanto aos que não poderão velar, examinarão, tenho certeza, a si mesmos com acuidade. Quanto aos que terão passe livre para me ver de olhos fechados, também revelarei os motivos. Aos estranhos, entendo ser desnecessário ritualizar o momento, mesmo deles guardados no coração admiração e afeição de ouvir falar.

Como morto estarei, já na vida eterna, nada me importa qualquer crítica ou comentário em relação à minha não ortodoxa vontade por escrito. Este meu pensamento vem de muito tempo. Não sou especial em relação a ninguém, mas nunca precisei ser igual.

Claro que o resultado dessa dissertação é fruto do desamor e da incompreensão pela escolha do meu estilo de vida. Radicalizo muito na indignação sobre combater o que aprendi ser injustiça ao próximo, sem receber nada por isso, senão o conforto da minha consciência e cheio de dores inerentes aos semelhantes melhores do que eu imagino ser nesse quesito.

Prescrito, prescrito vou até ao final contra os abutres, por isso quero todo mundo longe de mim – os hipócritas, principalmente – , para não estimular falsos sentimentos para os puros de coração, aos que me ajudaram na minha jornada sem nada exigir, só pelo verdadeiro prazer de gostar de como sou ou de como era.

Atenciosamente. Perdão pelo revezamento dos verbos ( presente e futuro ), pois não é fácil escrever como se morto estivesse. Porém, entretanto, feliz, vou ressuscitar, em Cristo Jesus. Logo, não morrerei de verdade. Por isso, bem sei que posso ter essa petulância, pois a primeira morte é uma grande mentira para ao que crer de fé em fé.

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