Comecei este tratado introspectivo quando não conseguia dormir. Olhar a esmo, depois de variantes de pensamentos, senti-me sem rumo, mesmo sabendo sobre o destino da minha alma. Mas a questão intrigante era o meu propósito predestinado por Deus, a quem tenho passado maior parte do tempo em reverência. Porque minha carne repousa sobre espinhos, sem desejá-los?
Não tenho resposta e isso me faz inútil, menos do que imaginava exigir de mim o Criador, por todos os livramentos e convivências desde a infância até aos exatos 43 anos. Talvez, esteja sendo exigente demais comigo, almejando que um sinal seja dado para construir algo que ainda não passou pela minha imaginação. Estou engessado por um mar de engodo. Por quê?
A sociedade de falar o pensamento não funciona, porque ninguém, pelo menos os meus próximos, escondem de mim a verdade já revelada, quanto mais descortinar os feixes de bons perfumes e os odores que exalam de suas mentes. Não há de se mencionar nomes, porque elas próprias não suportam ser mencionadas. Seus mundos são exatamente firmados no que outros acham. Deus?
Não posso ser santo em meio tanta hipocrisia, porque os espinhos se acomodaram na minha carne e devo suportá-los para não ser consumido pela mediocridade dos fúteis. Tenho suportado questionamentos constantes, como se desejassem sugar de mim uma confissão. Tem momentos que, nitidamente, me vem à convicção, depois de desembaraçado completamente dos negócios desta vida, conseguirei realizar o sonho de criança. Sair andando pelo mundo sem rumo, anunciando as loucuras do Reino de Deus, em forma de mendigo, mas sendo muito rico, por me livrar do corpo desses espinhos. Desejarei apagar da minha mente o passado e assumir outra identidade como foi dada a Paulo, que antes era Saulo. Conseguirei?
Ao descrever tal quadro, pode parecer a quem um dia ler que me sinto superior a todos, sendo único, contudo, ao contrário, almejo, justamente, fugir, da rotina imposta por sistema tão perverso controlado pelas hostes invisíveis, malignas, ao extremo, que só não me alcançou para destruição completa por conta da marca de nascença na presciência do Nosso Senhor Jesus Cristo. Delírio?
Escolhido eu sei que fui, para o serviço do meu Rei, mas ainda preciso descobrir se servi para ser, ao menos zelador, dos átrios. É esta a parte mais dolorosa, estar em meios aos espinhos, desconhecer ser próprio destino, exercendo com fé, a esmo, o que lhe vem à mão. Falta-me esta certeza. Careço dela. Como conhecê-la?
Convivo com a mentira, com a dissimulação, com a teimosia, com o alimento estragado em meio ao banquete também de muitos manjares deliciosos. Mas não há como conciliar o santo e o profano. Seria da minha parte deslealdade para com Aquele a quem me propus fazer um pacto para toda a eternidade. Resta-me, neste momento, orar. A vigilância tem sido constante. Resignar-me?
Ainda que as idéias não estejam organizadas para alguém fazer juízo de valor, sei que não me importaria com tal presunção, pois me importa são os pensamentos produzidos em escala de qualidade inquestionável por se tratar tão somente do que eu sinto e não do que outras se inserem. Não se trata de individualismo, mas da forma mais importante de conversar com meu melhor amigo encarnado neste mundo de matéria: eu. Pode?

Anúncios