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Não me sinto especial olhando para os meus pés e dedos inflamados. Sinto-me igual à maioria, mesmo desejando ser diferente. A única coisa que vejo melhor, singular, é o tempo passando e muitas vidas vividas, não sabendo quantas ainda viverei. Não tem nada a ver com reencarnação. Tem a ver com os momentos intensos como os vivo e que me faz sentir ter vivido e morrido múltiplas vezes.
A cada dia levanto em busca de algo nunca achado. Deus tem sido testemunha desse esforço incompreensível à minha mente. Dedico-me para cumprir propósito ou missão, ao que parece impossível. Não me encontro, apesar da certeza pela fé da vitória já acumulada de batalhas gloriosas, todas, uma a uma, como se lutasse comigo mesmo, sendo esta a luta mais cruel, violenta e horrenda.
Meus olhos antecipam fatos, mas não com a clarividência necessária para saciar a minha razão. Nasci predestinado a questionar, com muita convicção. Tenho esperança de tudo valer à pena, mesmo quase desfalecendo. Minha cabeça gira em pensamentos sem nexo em meio a um mundo paralelo, de pessoas com seus defeitos e virtudes, na esperança de encontrar o ponto de equilíbrio do universo.
Até aqui, quem chegou a tanto, entende-se deparar com uma pessoa insegura e esta própria observação ressalta isto, contudo ninguém tente ver por este ângulo, pois a segurança não vem da afirmativa, mas de conhecer o caminho de ida e volta, definindo cada partícula do arbusto, da pedra, da terra, do objeto, enfim, daquilo que os olhos criam por meio do córtex.
Sinto a fadiga latejar a cabeça, então, neste instante, é que percebo que vivi muitas vidas. Algumas delas eu me recordo com prazer, pelo aprendizado; outras me lembram tristeza, pelo caos. Em síntese, autor de muitas sensações, provocando ódio e amor, como agora, escrevendo assim, parecendo superior numa condição adversa dependendo de quem interpreta como num quadro abstrato.
Das vidas que vivi não lhe dou muita importância, mas sobre a vida vindoura, esta eu espero com ardendo fervor, pois imagino que tudo que imagino será como imagino. Crer com fé me faz assim, então me considero especial, mais do que olhando para os pés e dedos de um homem que não pisa há muito com as plantas do solado nu em solo real.
Nisto me glorio. Não temo a morte, porque sei que ela não existe para mim na definição que o dicionário a dá ou de que qualquer filósofo possa defini-la.
Minha alma continuará ultrapassando os tempos, sem pés, sem membros corruptíveis, mas completamente glorificados, sem idade. Sem maldade. Sim eu creio!

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