Somos sobreviventes, heróis, numa disputa entre 40 milhões de gâmetas, antes de fecundar e sair do ventre. Esse esforço, tem nos levado na vida a uma tendência antropofágica e de psicose, com tendência para a desgraça. Se escrevesse neste espaço sobre a vida alheia, os cinco sentidos seriam aguçados, porque fomos treinados pelo sistema a se apresentar como é convencional, cuidando dos que os olhos vêem e não como somos, miseráveis, na medida da alma pequena. O ter sobrepõe o ser.

As primeiras explanações aparentam um autor pessimista, negativista, mas, com o tempo, lerão ao contrário. A bem da verdade, falamos e escrevemos pelo momento em que vivemos. A construção do texto e das circunstâncias são fragmentos de todo o instante da aspiração e respiração. Expor sentimentos não é algo fácil, por isso preferimos a exposição deplorável das emoções dos outros. Gostamos de ser juízes e não sermos julgados. O medo umbilical, da sobrevivência, persegue-nos até o último suspiro.

Todos os dias levantamos para cumprir metas e, os mais altivos, para realizar sonhos. Mas, a maioria, tem inclinação para observar o insucesso dos outros, do vizinho, do mais próximo, alimentando sentimentos além das fronteiras da bondade, como ciúme, orgulho e inveja, as mais poderosas armas destrutivas do mundo.

O mundo cão nos fascina. Justamente porque nele nos encontramos, nos porões da inconsciência, onde se encontra os entulhos que guardamos como brinquedo de estimação. Envergonhados, preferimos rir e debochar das imperfeições dos outros, porque não temos coragem para recriminar as nossas.
Sei o quanto é difícil alguém chegar a ler tudo isto e reter o que é bom, porquanto a velocidade da informação não permite esperar tanto, com leituras sobre a existência, como observar um quadro abstrato, sem entendê-lo, porque nos alimentamos mais das coisas superficiais e claras, factíveis. A nossa mente, nesta geração, está sendo treinada mais para a leitura em código, dinâmica, sem muita exigência de raciocínio.

Esta efémera atmosfera da globalização nos dá o perfeito entendimento do quanto estamos programados para ser superficiais e tendenciosos para caos.

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